sábado, 14 de agosto de 2010

A arte é um bom retiro?


É fato que todo artista carrega o estigma de ser louco, prova maior disso é que um baseado tem como sinônimo ‘cigarrinho de artista’, pois bem, repetindo a frase que nossa amiga Jackie Brown dizia em seu perfil; "dizem que sou louca, e é verdade, mas quem não é?"

Semana passada a fotógrafa Lina Faria, publica diariamente suas impressões através de um blog, e é minha mãe, fez uma piadinha, como sempre, e disse: todo artista curitibano que se preze passou por aqui, o ‘aqui’ que ela dizia era o Hospital Psiquiátrico Bom Retiro, pois é, a incompreensão, desvalorização de sua classe e, é claro, outros fatores de sua vida sempre um tanto quanto conturbada, levaram ela para lá, mas com passagem de volta, já está em casa, ufa! Apenas uma breve estadia pelo ponto de encontro de tantos outros artistas daqui e pessoas perturbadas mentalmente o que, provavelmente, todos somos, mas acredito que este é o começo de nova vida, tendo em vista todos os grandes talentos que já se hospedaram por lá.

O Zebeto, jornalista de Curitiba, que também é dono de blog famoso, que nunca morou no Bom Retiro, mas já esteve em outro hospital parecido, foi visitar minha mãe, perguntei para ele se o Leminski também tinha passado por lá, e ele respondeu prontamente; 'não, se tivesse vindo não teria morrido tão cedo' Leminski, nosso representante dos cachorros loucos, era muito amigo de toda a ‘tchurma’ citada nesse texto, todos seres dessa raça canina em particular também. Conta a história que nem tudo eram amores na vida desse bandido que sabia latim - denominação que Toninho Vaz deu ao polaco - como toda vida de artista, que para muitos é vista como glamourosa e para tantos outros vagabunda, pois para mim, eles são mesmo é heróis, viver de arte, principalmente no Brasil é prática quase impossível, dura e que muitas vezes termina mesmo em loucura. Mas, sem dúvida alguma, os médicos do Bom Retiro devem gostar especialmente desses tantos artistas que passam por lá, ao menos tornam aquela rotina um pouco mais divertida, usando seu talento como ferramenta para melhorar um pouco a condição em que se encontram.

O cartunista Solda, mais um no ranking de blogs badalados da capital paranaense, também passeou por aquelas bandas, em uma, podemos dizer, feliz coincidência, dois outros curitibanos famosos já o esperavam por lá, eles; o artista plástico Rogério Dias e o saudoso Marcos Prado, para fugir do tédio, e possivelmente, receberem alta logo, esses cachorros loucos criaram a banda Lixo Hospitalar, que ficou famosa entre os pacientes da época. Essa história foi contada pela minha mãe aos recentes internos, fez tanto sucesso que formou-se fila ra entrar na banda e quem sabe fazer um Lixo Hospitalar O Retorno, sorte dos médicos que a líder do movimento não ficou até o segundo ensaio do conjunto, pois ganhou alta em 15 dias de internamento. Retamozzo e tantos outros artistas novos e antigos, figuras que não querem ser citadas, deram também sua graça no Bom Retiro.

É minha gente, vou me cuidar mais para não ter que passar por tal experiência, pois, além de filha de artista, e aspirante a ser uma, também faço parte de um dos reconhecidos blogs da nossa cidade e acredito que sou uma curitibana que se preze. Pois é, tenho todos esses quesitos e também devo ter algum transtorno. Brincadeiras á parte, acho incrível a capacidade de recuperação e de vida nova que todas essas pessoas nos ensinam, tantos percalços e até mesmo preconceitos não impediram que nenhuma delas voltasse à suas atividades artísticas e com tamanha dignidade e lucidez, isso mesmo, lucidez. O sábio Oscar Wilde, que com toda certeza sofria do mal do artista, disse; “de perto NINGUÉM é NORMAL.” Ou você acha que é? Se sua resposta for sim acho mesmo é que você está ficando doido.


foto: Lina Faria

por anaterra viana, latindo

6 comentários:

  1. eu já disse pra Lina que tb quero minha semana.

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  2. Ei, Cabuquinho, menas...
    de perto a coisa é bem preta!

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  3. todo mundo sabe que adoro coisas pretas.

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  4. A Lygia Fagundes Telles já disse:

    "Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas."

    Administração caseira da loucura, essa flama em meio ao tédio, essa paixão - que vem de pathos - doença. Paixão doida e doída por algo perdido, que jamais vai ser restaurado: a totalidade, a paz total, o equilíbrio absoluto. Normalidade é mito. Somos desde sempre meio mancos, meio poucos.

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